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Peregrinação a Fátima (Os Pais)
Nos passados dias 8, 9, 10, 11 e 12 de
Maio tive a feliz oportunidade de poder viver um dos momentos mais fascinantes
que alguma vez vivi.
Muito simples,
Quando julgava que tudo sabia acerca de Fátima, de Maria, da peregrinação, das
hipotéticas reacções, sentimentos ou estados de espírito encontrei-me, sem que
nada o fizesse prever, numa dimensão fantástica e indescritível de amor, de
encontro com Nossa Senhora de Fátima e de valorização para com aqueles que me
rodeiam todos os dias.
Na verdade,
Quando alguém vai a Fátima a pé logo vem aquela ideia muito provinciana e
própria daqueles que nada sabem e que passa por dizer e/ ou pensar e/ ou opinar
– lá vai aquele beato… deves ser padre… deixa-te disso!
É normal, é fruto da nossa educação ignorante! Ou fruto de alguém que pretende
dar nas vistas ou que tenta afirmar-se nesta sociedade tão vazia de princípios
e/ ou de valores!
Indo de encontro à peregrinação de Maio de 2010 não me farto de pensar na
agradabilidade imensa de tal evento.
Ou seja,
Eu – o Pedro – mais o Parrança (o Rafael), o Toninho (o António Pedro Fradique)
e o João Palma, metemos a ideia na cabeça de que deveríamos ir a Fátima sem nada
falarmos acerca das razões que cada um tinha e que levaram cada um de nós a tal
iniciativa. Nada opinámos, nada comentámos acerca do impulso que cada um tinha
para nos levar a tal trajecto pedonal de cariz religioso. Nada! Não falámos ou
premeditámos qualquer coisa. Apenas pensámos ir!
É aqui que julgo que algo superior nos movimentou até porque eu sou amigo do
Parrança, ainda do tempo de gaiato, em Lavre, conheço e sou grande amigo do
Toninho já há alguns bons anos e tenho igual amizade pelo meu querido amigo João
Palma que conheço há menos tempo.
Mas,
Mais curiosa se torna a coisa se se pensar que o Toninho pouco ou nada tinha
falado até hoje com o Parrança ou com o João, ou o João com o Parrança e com o
Toninho ou, a final, o Parrança com o Toninho ou com o João.
Só eu estava em vantagem! Todos diferentes, todos iguais, todos meus amigos!
E lá fomos!
Na nebulosa manhã de dia 8 de Maio do ano de 2010, Sábado, partiram de minha
casa em direcção à Pastelaria “O Bolo Branco”, três pais babados e com o
objectivo de cumprirem a primeira etapa pedonal até essa ilustre Vila de Lavre.
Após uns galões e umas torradas lá partimos na esperança de arranjar uma bolha
nos pés até Lavre.
Já tínhamos passado a placa de Vendas Novas aí uns cem metros quando nos
lembrámos que nos havíamos esquecido de assinalar a efeméride com uma foto dos
pais peregrinos à saída da nossa terra.
Até aqui era a novidade, a graça, o início de uma grande caminhada!
Antes que me esqueça e antes de avançar na caminhada tenho que explicar que cada
um de nós levava vestida uma t`shirt com alguns dizeres. No meu caso, e a título
exemplificativo, a minha t`shirt tinha estampada na frente a seguinte mensagem
“o pai Pedro vai a Fátima com o Kiko, o Toti, a Maria e a mãe Tita” e nas costas
figuravam as datas e as etapas até Fátima.
Como é fácil concluir cada um levava consigo os seus filhotes e as esposas/ mães
nas suas t`shirt`s.
Daí que nos chamassem como chamaram e como atrás já fiz referência, o grupo dos
pais.
Continuando a viagem pedonal,
Dobrada a curva do Jaquim Sebastião, já na peugada da Ameira, apanhámos uma
valentíssima carga de água. Foi um teste duro ao nosso material contra a
pluviosidade. Da minha parte foi bom porque me obrigou a refazer a mala e
respectivos adereços.
Nesta curta viagem ainda sem o nosso irmão João, no meio das histórias de Lavre
– contadas por mim e pelo Parrança – e no meio de muita infusão benfiquista
junto do pai Toninho eis que aparece um automóvel na Serra da Arriça que pára.
Abriu-se a porta do referido carro e, no meio da chuva, uma cabeça de uma
senhora aparece curvada para nós perguntando “Querem uma boleia para o Lavre?”.
Duas considerações a tecer! Primeiro não era uma pessoa de Lavre. Todos dizemos
em Lavre – vais a Lavre, para Lavre, vens de Lavre, és de Lavre (…) mas nunca
nenhum lavrense diria “o Lavre”. A segunda e melhor consideração ou conclusão a
tirar foi ver alguém que numa estrada ou numa zona que não é a sua, uma senhora,
sozinha e atentos os tempos que correm, ter a coragem de oferecer boleia a três
tipos mal entrapados que fugiam da chuva e a pé.
Agradecemos e mandámos a referida senhora seguir viagem. Instantes depois
instalou-se um silêncio e um sentimento introspectivo entre nós que nos obrigou
a comentar e a venerar tal atitude tão boa. Foi neste momento que rezei a minha
primeira oração sem que os outros se apercebessem. Verti então a minha primeira
lágrima que passou despercebida no meio da chuva.
Acho que foi a partir deste momento que os três pais, cada um por si e à sua
maneira, começaram a encontrar, muito embrionariamente, a razão da sua
caminhada.
Chegados a Lavre fomos ter com o João, o quarto pai.
Alegria das alegrias foi quando almoçámos já um pouco tarde com os nossos
filhotes e com as mães que nos esperavam em Lavre nesse grande restaurante que
dá pelo nome de “O Maçã”.
Parece que não nos víamos há dias e ainda só tinham passado umas horas!
Por ali ficámos, por ali pernoitámos e no dia seguinte juntámo-nos ao grupo de
peregrinos de Évora na missa da manhã!
A cerimónia religiosa, o estar em Lavre, o desafio, a carga e a mistura de
sentimentos, as pessoas de Lavre que me desejavam sorte na partida, a presença
dos meus pais, a envolvente, a entreajuda, a Fé ali tão presente, tão sentida e
tão real levaram-me para uma dimensão diferente e/ ou superior que provocaram em
mim – e sei que os restantes pais também sentiram – um bem estar tão agradável
que não se explica e que foi muito, muito sentido.
Em Santana do Mato tivemos o belo do almoço com um belíssimo cozido à
portuguesa!
De seguida fomos até Coruche e tivemos um momento espiritual muito intenso e
bastante gratificante. Encheu-nos a nós, aos quatro pais, e penso que a todos os
outros, de um sentimento de paz, de reflexão e de amor.
Chegados a Coruche, aparece-me a primeira bolha, segunda etapa cumprida e o
Benfica sagra-se Campeão Nacional!
Até o pai Toninho que é o único pai que não é benfiquista e que não tem ligações
a Lavre se converteu momentaneamente ao “benfiquismo” e ao “lavrismo”.
Terceiro dia e pusemo-nos a caminho de Almeirim. Encontrámo-nos na estrada com
muitos mais peregrinos e com alguns amigos.
As experiências trocadas com os restantes elementos do grupo de peregrinos de
Évora onde estávamos inclusos, as experiências de vida que conhecemos, as razões
de quem vai a Fátima há muitos anos, a devoção, o rezar o terço, a oração em
grupo tão sentida e tão verdadeira, a Fé…
Que maravilha!
Nos últimos quilómetros até à entrada de Almeirim, os pais tiveram a honra de
carregar a cruz até àquela localidade guiando um grupo de cento e muitas pessoas
carregado de silêncio e de respeito, de paz e de encontro com Deus!
Em Almeirim vieram as primeiras massagens, rebentaram-se as primeiras bolhas e
tornámo-nos nuns verdadeiros profissionais do Halibut e do Voltaren.
Avizinha-se, pelo que dizem, a etapa mais dura! De Almeirim até Alcanena!
Foram muitas horas a fio sempre a andar mas as orações, a boa disposição e
principalmente uma enorme força de espírito ajudou-nos a estancar uma qualquer
contrariedade física ou mental.
Em Alcanhões, antes da missa, o João tirou-me uma foto, sentado e abraçado ao
Parrança, com as tais t`shirt`s vestidas com os nomes dos respectivos filhotes,
e enviámo-la, via telemóvel, à Tânia e à Catarina, professoras dos nossos filhos
no primeiro ano e na pré-primária.
Recebi no meu telemóvel, inesperadamente, das referidas professoras, a resposta
com uma foto dos nossos quatro gaiatos. Deu numa choradeira pegada!
Na missa só via os rostos dos miúdos e só olhava para Maria, no altar, e
dizia-lhe, cantando… obrigado Mãe!
Nas margens do Alviela parámos para descansar e logo de seguida seguimos em
pequenos grupos de dez rezando o terço.
Ao chegar a Alcanena, as forças eram cada vez menos mas todos estavam carregados
de muita Fé e de muito querer, sabendo todos que por nada deste mundo nada nos
impediria de chegar à penúltima etapa.
Vem aí o último dia!
Uma última esfregadela nos pés à base de vitamina A – Halibut e afins – mochila
às costas, bordão em punho, um café madrugador ainda de noite após um bom
pequeno almoço na Escola Secundária de Alcanena, terço na mão e um enorme alento
físico e espiritual. É e foi a receita ideal para a última etapa!
Chegados a Minde havia uma placa que dizia “Chegou a Minde, sorria”! E nós
sorrimos, tomámos um cálice de vinho do Porto do Brotas e ganhámos coragem para
a subida até ao Covão do Coelho!
Em Minde avistámos uma placa que dizia: “Fátima 14 km; Santiago de Compostela
474 km”!
Brincámos dizendo… já agora vamos até Santiago! Não! Ah pois não! Com todo o
respeito que a outra peregrinação nos merece é Fátima e/ ou Maria que nos
espera!
No Covão do Coelho fomos aplaudidos pelos muitos peregrinos que ali recebiam
emocionadamente os outros irmãos – nós – vindos do Alentejo.
O Estêvão, irmão ímpar nesta caminhada, cantava, rezava, organizava,
impulsionava e emocionava o grupo e muitos e muitos peregrinos e populares que
por ali se encontravam nessa bela localidade do Covão do Coelho!
Foi mais um daqueles momentos em que todos cantávamos já a respirar Fátima!
As estradas estavam totalmente entupidas! Faltassem dez, vinte ou cem
quilómetros tenho a certeza que todos lá chegavam atento o ânimo desta gente!
Não se explica, sente-se! Fátima está ali!
Faltavam dois quilómetros e parámos para o repasto! Tínhamos que almoçar rápido
e entrar em Fátima antes das duas da tarde por causa da visita do Santo Padre!
E assim foi!
Distraídos de dois a dois, ligados à imagem da gigantesca operação de segurança
demos connosco a entrar na rotunda à entrada de Fátima, a dos pastorinhos, e eis
que tive uma das sensações mais agradáveis que já alguma vez vivi em toda a
minha vida!
Um grupo de cento e muitos alentejanos pararam e cada um deles levantou seus
bordões, paus e cajados, canas e muletas, formando um túnel humano por onde
todos entrámos emocionadamente, deslumbrados com a chegada e agradecendo entre
uns e outros aquilo que cada um nos deu neste ou naquele momento.
Continuámos em direcção ao Santuário!
Pelas ruas e caminhos que passávamos fomos agraciados por muitos populares e
peregrinos que nos recebiam com palmas tão calorosas e tão afectivas que não
haviam quaisquer pés gretados, bolhas ou maleitas de qualquer natureza que nos
impedissem de nos encontrarmos com Maria!
De repente, diz o Estêvão: “… de quatro em quatro e em silêncio…”.
Vínhamos rezando e tão emocionados que nem nos apercebemos de já estarmos no
Santuário!
Ouvi alguém dizer: “São os alentejanos… é o grupo de Évora…”!
Até à Capelinha das Aparições foi uma choradeira pegada!
Sem palavras!
Foi uma pequena caminhada de metros com uma mão cheia de peregrinos alentejanos
devotos, sãos e com muito amor e gratidão para com Maria!
Estava ali tão perto!
Ali chegados, de mãos erguidas ao alto, unidos por um espírito e em uníssono
cantámos a Maria em jeito de agradecimento e de dever cumprido!
Estivemos vários minutos em abraços e com muitas lágrimas entre todos os do
grupo! Foi fantástico!
Lágrimas limpas, coração cheio e fomos encaminhados para as carrinhas de apoio a
fim de ali tomarmos algo e podermos levantar o nosso material.
No caminho, dentro do Santuário, os pais ainda foram interceptados pela TV. E
eis que os pais, os quatro, deram uma bela de uma reportagem onde de tudo
falaram… da caminhada, de Fátima e das famílias que ali transportavam estampadas
nas t`shirt`s.
Igual entrevista aconteceu com um repórter de uma revista francesa que ficou
embasbacado com o figurino dos quatro pais!
Resta-nos a procissão das velas.
Uma noite inesquecível! Eu, os outros pais e muitos outros peregrinos
regressámos a cada uma das suas casas cheios de frio mas com muito calor
interior… muita Fé, muito amor e muita certeza de que a mãe maior – Maria –
esteve, está e estará sempre ali a olhar por nós!
Obrigado Maria por me fazeres acreditar num mundo melhor para todos.
Obrigado irmãos e amigos peregrinos!
Obrigado pai Rafael, pai Toninho e pai João!
Obrigado Mãe!
Já agora… vale a pena pensar nisto!
Um dos pais,
Pedro Félix
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